28 julho 2013

Ouvido em Lisboa #8


«Tirando um ou outro pormenor está relativamente bem traduzido... embora eu não conheça o texto original»

26 julho 2013

Mau agoiro na Estefânia


É urgente definirem-se regras de código arquitectónico.
Lisboa tem um património arquitectónico que lhe permite definir um contexto geral de intervenção, garantir a liberdade de criação e de autoria e até encontrar as excepções, se necessário e onde necessário.
Porque gostos, ao contrário do que se diz, em arquitectura discutem-se, porque afectam o colectivo. 

A fábrica das salsichas

As crónicas de Manuel Falcão sobre Lisboa, como esta, são provavelmente um dos case-studies mais relevantes da história de como fazer "render o peixe" ou, com muito pouco fazer muita quantidade. Fica um excerto:
"Lisboa
À medida que se aproxima o 29 de Setembro, aceleram as obras. Ruas há muito esburacadas levam um maquilhagem de asfalto. A Rua do Ouro, que parecia um concurso de lombas e declives, está a levar um "facelift". Costa desempenha o papel daqueles cirurgiões estéticos que não resolvem o problema, mas conseguem iludir as aparências. O que anda a fazer em Lisboa - da beira rio, ao centro da cidade, é uma espécie de botox alcatroado. Só lhe falta fazer rotundas - mas em compensação fez ciclovias que permanecem desertas na maior parte do dia. Pelo caminho que as coisas levam, António Costa será um voto perdido para os que nele acreditam - vai conseguir maneira de deixar Lisboa entregue ao soldado desconhecido enquanto ele vai pelear pelo Governo . A Lisboa de Costa, a vida política de Costa, é isto: ilusão, make up e propaganda. O pior é quando se anda na Avenida da Liberdade..."

A receita é simples e permite produzir um produto em série até à exaustão. Vejamos uma lista básica de requisitos com que se constrói a generalidade das crónicas:
1. Dizer mal de António Costa, porque não fez aquela obra.
2. Dizer mal de António Costa, porque fez aquela obra, logo é propaganda.
3. Dizer mal do António Costa por causa do "Zé".
4. Criticar o "Zé" porque tem executado boa parte do que prometeu fazer, logo não faz falta.
5. Discordar das ciclovias, as bicicletas e os ciclistas, porque Lisboa claramente não tem aptidão para andar de bicicleta.
6. Criticar os ciclistas porque começam a ser cada vez mais e até já atrapalham e as ciclovias porque há um pequeno tufo de ervas ao km 3 de uma ciclovia e tirar uma fotografia com "zoom" ao dito tufo.
7. Lamentar a Avenida da Liberdade onde agora "não se consegue andar".
8. Denunciar as obras de requalificação de espaço público, que não desenvolvem a cidade.
Da minha parte aos poucos fui deixando de acompanhar as suas crónicas, porque atingi a exaustão dos temas e dos mesmo argumentos de sempre. 
Dou algum desconto extra a algumas das suas análises,porque não é mesmo possível avaliar uma cidade de dentro de um carro, que é onde parece que as mesmas são escritas.
(Imagem AQUI)

25 julho 2013

Fica mesmo?

Em Junho, o meu companheiro de blog, perguntava se João Semedo ficaria na Câmara caso fosse eleito, numa comparação pouco feliz, quanto a mim, com o que é provavelmente o político menos sério do país.


Não acho que esse tema - se o cabeça de lista fica ou não fica - seja o tema mais importante a debater numas eleições autárquicas. E o programa? E o resto da lista? E a Ideia de Cidade? No entanto, continuo a achar, como disse na altura na caixa de comentários, que seria normal e saudável que os candidatos esclarecessem se em princípio ficam os 4 anos do mandato ou se ficam apenas 2 ou se ficam-a-não-ser-que, etc...

Acho sobretudo normal e saudável, caso esse cabeça de lista não seja um mero candidato a Vereador, como acontece com João Semedo, mas sim candidato a Presidente da Câmara.

Ora, creio que António Costa tem esclarecimentos a dar sobre isso. Ainda para mais quando a número 2 da sua lista tem um super-quadro como é Fernando Medina (que por acaso é portuense dos 7 costados).

Ao ler a entrevista de hoje, de António Costa ao Público, não se percebe nada. Ou antes, percebe-se que não há garantias de nada.... pelo que não posso deixar de devolver* com simpatia ao Duarte a pergunta "fica mesmo?"


*Nota: digo "devolver" porque, como muitos saberão, eu apoio a lista do BE e o Duarte a do "Juntos Fazemos Lisboa"  

23 julho 2013

De bicicleta eu vou!

Sabia que cerca de 50% dos trajectos em meio urbano com recurso automóvel são inferiores a 5 km? (Fonte: Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta)

Poderão grande parte desses trajectos ser substituídos pelo uso de transportes públicos ou até mesmo de bicicleta?

Para quem inicia uma nova rotina com um outro tipo de transporte, terá provavelmente que estudar novos percursos.

Se optar pela bicicleta e se ainda não reparou, para além da estrada já conhecida dos automobilistas, há uma extensa rede ciclável pela cidade.

De facto, são cada vez mais os utilizadores destas pistas para lazer mas também nas deslocações casa-trabalho, com múltiplas vantagens individuais e para a cidade. Alia-se o exercício físico com mais oportunidades de descobrir a sua Lisboa, reduzindo o tráfego automóvel e por isso melhorando a qualidade do ar, a médio e longo prazo.

No âmbito da Semana Europeia da Mobilidade, Lisboa E-Nova volta a apostar n' "Um dia a pedalar". E porque não?


Aqui está uma óptima oportunidade das empresas incentivarem os seus trabalhadores a experimentarem as ciclovias da cidade.

Se é empregador(a), informe-se sobre esta iniciativa e como poderá inscrever a sua empresa na página da Lisboa E-Nova.

Se está empregado e pretende aderir a esta iniciativa, fale com a sua empresa para aderir e planeie o seu trajecto no dia 20 de Setembro.

Recomendo o uso da ferramenta http://lxi.cm-lisboa.pt/lxi/, onde pode visualizar as ciclovias a usar no seu trajecto casa-trabalho (módulo "Temática" -> ciclovias) e a distância a percorrer.

A velocidade média de bicicleta em cidade anda pelos 14km/h, dependendo dos percursos de subida, em contraposição dos 5 km/h do peão.

Será que ganha tempo se for de bicicleta para o trabalho?

Experimente! Em grande parte dos casos, verá que os resultados são espantosos!

20 julho 2013

Mouraria, quem diria?

Decorreu por estes dias a iniciativa Mouraria Light Walk, e pela visita que fiz, valeu a pena a experiência!




Num momento em que se fala tanto da "salvação nacional", aqui está um exemplo de como um projecto transversal acrescenta valor e transforma positivamente a cidade, salvando-a do declínio/esquecimento... Basta revisitar os problemas sociais e urbanísticos que a zona apresentava há uns anos largos e comparar com a actual dinâmica que lá se consegue constatar, para perceber que intervenções desta natureza mobilizam energias coletivas, provavelmente impossíveis para os mais cépticos ou "cavaquistas do destino"...



Muito ainda falta fazer, mas os sinais de reabilitação urbana são motivadores e a dedicação da população local é uma inspiração!


A ver:

«A Cidade de Bicicleta»

Vale a pena ler a entrevista de Duarte Mata (que entre outras coisas é co-autor deste blog) ao Jornal Pedal, por Tiago Carvalho.

 Aqui, on line nas páginas 14 e 15.

19 julho 2013

Júlio de Matos abre Jardins ao público

Um espaço verde de grande potencial aberto ao público a partir de hoje e de forma permanente, em horário alargado. Uma área fundamental da estrutura verde da Cidade, fazendo de "rótula" entre o Campo Grande, Mata de Alvalade e a Quinta das Conchas.
http://www.cm-lisboa.pt/noticias/detalhe/article/hospital-julio-de-matos-abre-seus-jardins-ao-publico

O Intendente regenera-se com TODOS

O poder político fez a sua parte: renovou espaços físicos e infra-estruturas e, acima de tudo, aproveitou os recursos locais, promovendo o encontro entre pessoas, culturas e associações do bairro.
O expoente máximo desse encontro é o Festival TODOS, realizado anualmente em Setembro.

A foto abaixo foi tirada numa dessas iniciativas, no arquivo fotográfico: 1 músico, cantando e tocando, sob pano de fundo de uma exposição fotográfica com as pessoas do bairro.


Reconheci algumas das caras com que me cruzava no dia-a-dia. Lembro-me que posteriormente encontrei uma dessas pessoas e a sua fotografia na exposição foi o mote para iniciarmos conversa. Desde aí dizemos olá quando nos avistamos.

São estas relações que gosto de sentir nas ruas do Intendente. Entre as pessoas, as organizações e as próprias lojas de bairro.

Como hoje, numa farmácia, em que enquanto esperava para ser atendida, fui brindada com 1 compilação de fotografias do bairro, desde os anos 20 aos dias de hoje, a passar no ecrã da farmácia. E soube que eram muitas as pessoas que lá iam espreitar para, como elas referiam, ao pedir permissão para entrar, quererem "ver 1 pouco de televisão".

Fonte: GoogleMaps

Agradeço à farmácia e às pessoas que nela trabalham por este serviço. É esta 1 válida razão para fazer questão de a continuar a frequentar.

17 julho 2013

Espaço público é para ocupar mesmo

Num outro post abordei a revolução sentida nos últimos anos no Intendente.

Talvez incitada por este investimento autárquico na renovação e apropriação do espaço público para usufruto das pessoas, tenho-me encontrado cada vez mais amante destes pontos de convergência de culturas, vizinhos, vidas.

Desta vez, decidi experimentar 1 outro espaço de Lisboa.

Depois do jantar, lancei o convite a 1 amiga, que partilha deste gosto. Em vez de ficarmos em casa, sentadas no sofá, desta vez, deambulámos pela freguesia da Penha de França.

Mesmo ao pé da Praça Paiva Couceiro, não resisti aos neons da roulotte em plena actividade e pedi 1 fartura quentinha, lembrando os velhos tempos de infância.

Ficámos pela Praça renovada, conversando e apreciando a vida que por ali passava àquela hora. Era surpreendente a quantidade de pessoas, miúdos e graúdos, e das relações que se estabeleciam entre elas naquela noite amena. Sentiam-se os laços do bairro, pelas gargalhadas e sorrisos, o vai-vém das bicicletas, o ladrar dos cães, as conversas entre as cartadas. Fiquei com vontade de também para aqui vir com a família.

Entretidas e perante tanto reboliço, não demos pelas horas passar. Era quase meia-noite quando reparámos e decidimos ir conhecer o resultado final do mural, junto à igreja da Penha de França.

A subida em boa companhia e, apesar da hora, fez-se tranquilamente e em segurança. No mural, chamaram-me a atenção os corações. Vendo os outros detalhes, reparo na lenda inscrita.

Gostei deste novo marco da freguesia. Um verdadeiro spot de arte urbana, para encontros enamorados ou inspiração para histórias com crianças, dependendo da perspectiva e criatividade.


Fonte da fotografia: https://www.zaask.pt/user/leonorbrilha

13 julho 2013

Sobre a falta de transparência na máquina do Estado

A CML recorreu da decisão do Tribunal Administrativo sobre a obrigatoriedade de ceder ao jornalista António Cerejo, e portanto tornar público, o relatório do Vereador Nunes da Silva, elaborado em 2011, sobre a contratação pública na Câmara.

Independentemente do relatório em si, os termos em que está redigido o recurso da CML é todo um notável Manifesto sobre a relação do Estado, dos políticos e da Administração Pública com os cidadãos.

«Trata-se de proteger a reserva das discussões e documentos de cariz político que outra utilidade não têm do que ajudar na tomada de decisões e opções, essas sim públicas», diz o recurso.

Esta visão da Câmara ou do Estado, como uma entidade fortemente autonomizada, uma espécie de máquina fechada, composta por especialistas e meios capazes de produzir o melhor produto final possível para os cidadãos consumirem e calarem, é um flagelo em Lisboa e em muitos e muitos sectores do aparelho de estado. Um flagelo que origina fenómenos como a pequena corrupção e o tráfico de influências, mas também está relacionado com a própria falta de eficácia da "máquina do Estado", excesso de burocracia, uma Administração pouco vocacionada e focalizada em servir os cidadãos, resolver os seus problemas, responder aos seus desafios.

Quer isto dizer que não ponho toda a responsabilidade em António Costa, como faz Cerejo, mas alargo a crítica a toda uma Cultura instalada no aparelho de estado, dos responsáveis políticos aos Dirigentes e quadros da Administração, em vários níveis, de opacidade, inacessibilidade e mesmo de falta de transparência.


No entanto, naturalmente, o Executivo não pode deixar de ser alvo de críticas concretas.

O Vereador Nunes da Silva, independentemente de ter ou não razão nas criticas que fez no seu relatório de 2011, foi incómodo e levantou uma série de questões que se já se puseram a muitas pessoas: porque é que há tantos ajustes directos? Porque é que é que não há maior diversidade de fornecedores? Porque é que são tão vulgares os "trabalhos a mais" e a derrapagem de orçamentos?

Recorrer neste momento da decisão do Tribunal Administrativo, serve só para adiar, para depois das eleições autárquicas, a divulgação do relatório, obstaculizando o debate em torno de uma série de questões que são polémicas e muito importantes de serem debatidas entre todos os lisboetas.

Não fica bem, a quem encheu Lisboa de outdoors a dizer "PARTICIPE".      


12 julho 2013

Intendente com vida

Se me perguntar onde é o meu trabalho, poderia dizer que é na zona dos Anjos. Pacífico q.b., certo? Então e se disser que é no Intendente? Que tipo de comentários inundam agora o seu pensamento?

É curioso ver o poder de 1 só palavra: "Intendente".

Há mais de 10 anos que ali trabalho. Sujidade, miséria, droga e prostituição eram o postal de visita de quem passava por estas ruas. A minha avó, que por aqui viveu e conviveu na sua juventude, ficava desolada com este cenário, tal a degradação sofrida da zona.

Como combater tudo isto? Podemos centrar-nos no problema e injectar dinheiro apenas para estes focos ou aproveitar os recursos locais, promover sinergias e relações sólidas no bairro (o Festival TODOS é 1 exemplo de sucesso, que falarei num outro post) e condições para que seja agradável e seguro ocupar as ruas.

Para mim, sentir tal transformação, é 1 aposta ganha de António Costa.
Coragem por ter trazido o seu gabinete para o Largo do Intendente. Sentir de perto a cidade e as suas dinâmicas é muito importante para que possa haver realmente mudança.

Por isso, falar-lhe das melhorias, não chega. Convido-@ a vir apreciá-las na primeira pessoa.

Se está demasiad@ stressad@ com o trabalho, tem aqui 1 óptimo medicamento: permita-se vir almoçar, vá, 1 dia por semana a esta zona e recarregar baterias para o resto da semana. Vai ver que é revitalizador.

 
Até já.

11 julho 2013

Prémio de 5 mil euros. Divulguem!


Até 30 de Julho, qualquer estudante que frequente uma universidade de Lisboa, poderá concorrer ao prémio "Academia LX" com um projecto de investigação orientado para a resolução de problemas concretos na cidade.

Um bom desafio para os estudantes de engenharia e talvez também design e arquitectura.

O regulamento está aqui

Sobre os barbeiros da Carris

Porque é que eu acho que este assunto dos "Trabalhadores da Carris querem 12 € por mês para cortar cabelo" é relevante? 
Por vários motivos: 
1) Primeiro, porque a Carris é uma empresa vital para o funcionamento da Cidade e uma das imagens que associo a esta empresa é a de uma empresa cada vez mais profissional, com a frota cada vez mais moderna e equipada e com excelentes motoristas. A esta melhoria que se sente, vê-se uma campanha permanente de tentativa de descredibilização da importância do transporte público, atacando os "grandes salários" dos trabalhadores da Carris, a grande maioria na ordem dos 700,00EUR/mês;
2) Segundo, porque se a empresa entendia e entende (e muito bem) que os seus funcionários devem trabalhar com boa apresentação, fornecendo por isso um serviço de barbearia, bem como fardas (e outros serviços logísticos, como cantinas), é mais que natural que tendo optado a empresa por "cortar" nesta vertente logística, haja toda a legitimidade para que os trabalhadores procurem a devida compensação, até porque as exigências mantêm-se. Não sei se 12,0EUR/mês é muito ou não para corte de cabelo (é provável que mensalmente seja muito), mas que é um assunto relevante, julgo que é.
3) Terceiro, porque talvez seja importante discutir da mesma forma as despesas de representação aplicáveis numa empresa pública, incluindo o "direito" a ter cartão de crédito, viatura da empresa ou até "lugar de estacionamento". Será que se cortou em tudo isto ou apenas na barbearia?
Imagine-se que um destes dias a Carris entenda também que deve cortar no serviço de fardamento. Nessa altura, caberá aos seus funcionários assumirem esta despesa?

01 julho 2013

A alegoria da caverna

Ainda a propósito deste post, fiquei recentemente confuso sobre se a autarquia Lisboeta deveria ou não proceder à remoção e limpeza destes veículos ilegalmente estacionados (do meu ponto de vista, claro), ou porventura propôr e apresentar em reuniões com os interessados que o seu ponto de vista (da autarquia) é o de que este espaço é uma ciclovia e um percurso pedonal e que o estacionamento ter-se-á que fazer em áreas existentes nas redondezas para o efeito, em espaços delimitados e para isso regulamentados (e pagos). 
Julgo que do outro lado a autarquia encontraria cidadãos que não se revêm neste conceito do direito colectivo à fruição do rio, a andar de bicicleta e a pé e, ou muito me engano ou as reuniões serão inconclusivas. Se forem inconclusivas, a autarquia deve ou não agir?