22 abril 2013

Pequeno Almoço (em Lisboa)



É com um bocejo sonolento que invado a cidade adormecida mas nunca dormente, provindo do anel suburbano, na companhia de outros invasores que, de igual modo ainda indecisos, vacilam entre o abraço acolhedor das sete colinas e os braços de Morfeu que repousam do outro lado do Tejo, nas urbes dormitório que, apesar de serem detentoras de inegável dignidade ontológica (e mesmo de uma identidade própria e vincada), se questionam em cada vaivém pendular de formigas humanas que atravessam o rio ou percorrem quilómetros atraídas pela inegável força magnética que dimana do âmago olissiponense.

A questão reverbera na exaurida caixa craniana... Ora sussurrada como uma carícia, ora ribombante como um trovão: O estômago e a alma permanecem vazios. Aguardam o alimento que só a cidade proporciona, e que sacia corpo e espírito. 

A vista que se desfruta do miradouro de Sta. Luzia. O cheiro do Tejo junto ao Cais do Sodré. A plenitude que só se sente quando repousamos o olhar sobre a cidade a partir do último andar de um prédio em Chelas. O galão e o pastel que se degustam numa cafetaria onde o tempo parou e o espaço é o de uma íngreme rua de Campolide.

Apetece não ter de partir ao cabo de mais um dia. Apetece fazer amor com esta amante de mil cores e sabores. Experiente e virginal a um tempo. O cigarro que se fuma lenta e pausadamente... E um sono reparador sob o manto de estrelas que se avistam  quando olhamos para o alto, tendo sob as costas uma rua de Alfama ou da Mouraria.

Entro no café onde todos me conhecem. Do lado oposto do balcão, os olhos vermelhos de sono (ou falta dele) e um sorriso que é a própria Lisboa dos pregões, das aldeias urbanas, da solidária cumplicidade que verte toda a vida nos ouvidos dos que partilham um mesmo espaço de que é dito que é pincelado de uma luz que não existe noutra parte...  Oiço, numa pergunta que encerra uma afirmação reiterada a cada manhã:  "Gabriel, Uma bica pingada e um pão com manteiga?"

3 comentários:

  1. http://www.publico.pt/local-lisboa/jornal/camara-viola-as-suas-proprias-regras-no-abate-de-arvores-da-avenida-da-ribeira-das-naus-26425816

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