06 maio 2013

Um problema "muito enorme"

Esta foto é Alcântara, mas podia ser em tantos sítios: prédios sem garagens, falta de estacionamento e ruas cheias de carros.
Este é de facto um "problema muito enorme", também ele o título de um excelente livro para crianças de Álvaro Magalhães sobre outras Paisagens, estas menos urbanas.
É muito fácil partir para esta discussão com as garras afiadas e dizer "deviam vir aqui e rebocá-los todos".
Também era relativamente simples chegar aqui e pulverizar a rua com pilaretes, os tais que até já apelidei de serem os "melhores amigos do Homem a seguir ao cão". E de facto, em muitos casos são mesmo inevitáveis.
Depois há soluções mais integradas, como as que vemos até em curso em várias ruas da Ajuda, de nivelar a rua, uniformizar os pavimentos permitindo anular a diferença entre o espaço pedonal e o espaço viário, obrigando o automóvel estacionar junto às fachadas e as pessoas circularem no meio da via, em partilha. No entanto, é uma solução muito cara e nem todas as ruas têm tão pouco tráfego que o permita.
Uma coisa é certa: defender para todos, nas circunstâncias actuais, que as famílias não tenham sequer um carro, isso sim não é consistente com a realidade. E onde não houver estacionamento na proximidade, é muito difícil generalizar a tentativa de anular o espaço automóvel. E quando toda a realidade demonstra o contrário, temos sim que saber parar e ponderar qual a melhor estratégia de equilíbrio entre soluções muito dispendiosas versus outras mais simples, tendo por objectivo conseguir melhores espaços públicos, mas tendo o carro como realidade.
É indispensável percebermos, por outro lado, que a ocupação de espaço por automóveis acareta muitos impactes, pelo que por isso o mesmo deve procurar ter um custo. O direito ao estacionamento "grátis" é um conceito que está fora desta minha discussão, que fique claro. 
Lisboa está cheio destas imagens e as soluções vencedoras serão as que forem capazes de tirar o melhor partido do custo-benefício das intervenções, porque dinheiro há muito pouco, e cada vez menos.
Julgo mesmo que os grandes desafios da Lisboa ao nível do espaço público do futuro próximo serão em boa parte a qualificação destes cenários que afectam a vida de tanta gente.

2 comentários:

  1. Duarte,
    bem sabes que temos maneiras muito próximas de pensar a cidade, mas devo dizer que deixei de concordar com esta visão.
    Acho que é importante deixarmos de ver este problema como um problema da cidade, um problema colectivo, para o tratarmos como um problema individual. Acho que o problema em Lisboa (cujo espaço dedicado ao estacionamento não tem paralelo na Europa) é assumirmos que é a CML que tem de tratar disto. A CML não trata do desemprego, não trata de arranjar habitação para todos (apenas pontualmente), porquê arranjar espaço para esta coisa toda?
    Em muitas cidades europeis, a CM estabelece um número muito rígido de espaços ocupáveis na rua, e o que não couber é problema das pessoas.

    Tu mencionas a falta de garagens, em alguns locais, mas isso é irrelevante. Há muitos bairros (avenidas novas, Alvalade, Alameda, Cp Ourique, etc.) onde as garagens não faltam, mas estão todas transformadas em lojas e escritórios. Exactamente porque era espaço privado que estava a ser "desperdiçado" com um propósito que se vê como "público".
    As garagens só seriam reocupadas, se fosse claro que o estacionamento do meu carro é algo que cabe a mim resolver. Nos bairros onde há menos garagens, elas apareceriam. Haveria gente interessada em converter caves em garagens para arrendar.

    E acho que não devemos ter medo em aceitar que isto vai afastar algumas famílias (as que têm 3 ou 4) do centro, porque vai atrair outras pessoas. A densidade de automóvel por fogo é baixíssimo nos centros das cidades europeias, mas elas não estão vazias por isso.

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  2. Já dizia o Mayor de Bogotá (Enrique Peñalosa)que "o estacionamento não é um direito quem vem na constituição"

    http://youtu.be/hPf4s2oFnp0

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